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Gonçalo Bruno de Sousa
Portugal
do silêncio
a palavra emerge do silêncio
como afrodite das ondas: bela,
como um diamante em veludo negro,
sobressaindo como o traço de carvão
na brancura do papel macio; tudo
o que ansiamos reside no silêncio,
até o amor, com o seu passo oblíquo,
e a escrita na areia, que o mar apaga,
como quem resguarda um segredo.
é assim: o silêncio é o ventre da fala;
o mais é o espanto das coisas ditas,
dos signos alinhados na folha lisa,
como uma manhã prometedora,
ventre redondo da poesia por nascer.
chega-me, por vossas mãos, a beleza
das coisas, dos pássaros silenciosos,
voando sobre as rochas submersas,
em círculos precisos, porém aleatórios.
em mim, apenas o mar, grávido e quieto.
do silêncio tudo pode ser dito com palavras,
como do pão e do vinho, todas as coisas
começam caladas consigo mesmas, a sós,
e depois emergem, em ardor e urgência.
o próprio sol, meus amigos, aflige a noite
com a sua inquieta gestação,
até que se abram as flores odoríficas
no grito uníssono das cores: verde, vermelho
e ouro - ao fundo, o azul intenso, quase branco.
o silêncio é assim: uma coisa em forma de pão,
cozendo no meio da noite, e há-de ser palavra,
e há-de ser poema, e criança e sol e flores
e todas as coisas que nos acrescentem.
publicado en nuestra revista Ilha Negra
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